
A crise do saber e os clssicos da educao
(Publicado in Revista Internacional d'Humanitats. Barcelona, So Paulo:
USP/ Univ. Autnoma de Barcelona, V.6, 2003 - http://www.hottopos.com/rih6/index.htm)
Dora Incontri
Neste
momento de crise epistemolgica, em que se anuncia a morte da cincia, da
histria e da filosofia; em que se desconstri o sujeito, estabelece-se um
vazio tico, e reduz-se toda verdade a mero discurso; quando a sombra do nada,
a sombra nietzschena, a angstia e a sensao de impotncia se estendem no
mundo, pode ser um bom exerccio resgatar uma linha de pensamento que quase
nunca suficientemente valorizada: a dos clssicos da educao. Em seus
escritos pode haver respostas para estas angstias. Entre eles, elegemos para a
nossa rpida anlise, Comenius, Rousseau e Pestalozzi.[1] Esse artigo pretende apenas indicar
alguns pontos que podem ser desenvolvidos numa abordagem mais profunda.
Primeiro, preciso lamentar que muitas vezes os
filsofos-educadores so considerados filsofos menores e, s vezes, nem mesmo
filsofos. Tambm como cientistas – se assim forem vistos – seu
status inferior aos de outras reas (mesmo se comparados a representantes de
reas de humanas, como cientistas sociais ou antroplogos). Veja-se, por
exemplo, poca de Comenius, havia dois gigantes, contemporneos seus, Ren
Descartes e Francis Bacon. Hoje, o primeiro criticado como pai do
reducionismo racionalista. O segundo pode ser visto como pai do reducionismo
empirista. Ora, o pensamento ps-moderno, justamente esse que fala de teorias
de complexidade e de transdisciplinaridade, se ope a essas formas de viso
parcial e unilateral, mas nunca cita Comenius, como interlocutor crtico de
Descartes (com quem esteve pessoalmente discutindo suas diferenas).
Pestalozzi, por sua vez, foi contemporneo de Fichte e outros
idealistas alemes. De Fichte, alis, foi amigo e escreveu sob recomendao
deste a obra-prima de filosofia Minhas indagaes sobre a marcha da natureza no
desenvolvimento da espcie humana. Os ps-modernos tambm fazem a leitura
crtica dos grandes sistemas de pensamento totalizante e, no caso de muitos
idealistas, totalitrios. Mas jamais algum filsofo contemporneo se lembra de
examinar as idias pestalozzianas.[2]
Outro exemplo: com toda a valorizao da sociologia no sculo XX,
quase ningum sabe que Pestalozzi considerado um dos pais da sociologia da
juventude, muito antes de Comte e Durkheim enunciarem seus mtodos. (Ver
FLITNER, 1968) Ou, num panorama mundial como o de agora, de ameaa de guerra
internacional e de questionamento do papel da ONU, ignora-se que Comenius foi
quem primeiro teve a idia dessa organizao e tinha ele mesmo propostas pacifistas,
300 anos atrs.
Acontece
que – e essa a nossa tese – justamente no campo da educao,
podem se encontrar todas a reas do conhecimento, podem se aliar todos os
mtodos de pesquisa e reflexo e se podem pretender algumas verdades sem
dogmatismo e algumas utopias, sem desvarios. Faz parte da prpria essncia da
educao, um modo de ser interdisciplinar, a necessidade de uma mnima
segurana terica para a prtica e a presena de um projeto de aperfeioamento
humano, sem o qual no h educao. Como diz Savater:
Como indivduos e como cidados, temos perfeito
direito de ver tudo da cor caracterstica da maior parte das formigas muito
preto. Enquanto educadores, porm, no nos resta outro remdio seno sermos
otimistas. Pois educar crer na perfectibilidade humana. (SAVATER, 1998:23)
Isso
parece confirmar a idia de que o excesso de relativismo, a desconfiana
absoluta de qualquer verdade e o esvaziamento tico no combinam com um projeto
educacional. O fato que justamente esses extremos a que chegou o pensamento
contemporneo foi uma reao ao pensamento dogmtico, reducionista e
compartimentado dos ltimos sculos. O interessante que tanto Comenius,
quanto Rousseau e Pestalozzi, embora imersos em seus diferentes contextos, eram
crticos das perspectivas que ento se solidificavam: no caso de Comenius,
contra a especializao e compartimentalizao, com a sua proposta de pansofia
(ou a sabedoria do todo); no caso de Rousseau, contra o excesso de
racionalismo, com sua valorizao do sentimento e contra o materialismo
emergente, com a idia de uma religio natural, no-institucional,
no-dogmtica, mas que leva em conta a dimenso espiritual do homem; no caso de
Pestalozzi, contra o inchao da filosofia idealista, com a valorizao da
observao emprica e ao mesmo tempo contra a viso reducionista do homem, com
a sua prtica de educao integral.
O
acesso realidade
Talvez
ignorar a contribuio dos educadores no seja um ato inocente e destitudo de
intenes, mas tenha relao com a prpria postura desconstrutivista do
pensamento atual. verdade que se alega a necessidade de uma religao dos
saberes (Ver MORIN, 2001), que se critica o racionalismo estreito e se quer uma
abertura para o complexo, o contraditrio, o plural E verdade que Comenius,
Rousseau, Pestalozzi revelavam tal abertura e tal crtica. (Por exemplo,
Comenius pretendia o dilogo inter-religioso em pleno sculo XVII e inclua
itens sobre as grandes religies mundiais no primeiro livro didtico ilustrado
do mundo, o Orbis sensualium pictus, alis um livro interdisciplinar e
multilinge.) Mas a diferena que os pensadores de hoje chegam na maior parte
das vezes a uma pulverizao total da realidade. uma transdisciplinaridade
que no d liga, no faz sentido. No h nada que a unifique, porque tudo
aleatrio. Edgar Morin adverte contra o que chama de obsesses ontolgicas
(MORIN & MOIGNE, 2000:78), revelando com isso, a proibio que o pensador
de hoje deve impor a si mesmo: a de no se permitir nenhuma certeza e jamais
declarar que algo . Vattimo refere-se na mesma linha de pensamento
dissoluo da estabilidade do ser ou ainda, citando Heidegger, afirma que do
ser como tal nada mais h. (VATTIMO, 1996:4)
certo
que pode parecer prematura qualquer leitura crtica de um modo de pensar que
apenas est nascendo e que, antes de propor solues, quer chacoalhar as
estruturas passadas. O prprio Morin explica: ҃ preciso que exista a crise e
preciso trabalhar para aprofundar essas crises e difcil dizer queles que
esto presos sua segurana mental que preciso aderir insegurana. (MORIN
& MOIGNE, 2000:71) Por outro lado, j estamos enveredando por esse caminho
nihilista h mais de trinta anos – o que pouco do ponto de vista da
histria humana, mas muito do ponto de vista da histria acelerada deste ltimo
sculo. E apontamos 30 anos se tomarmos o ps-maio de 68 e o lanamento de A
condio ps-moderna de Lyotard, como marco inicial. Mas se considerarmos o
sculo XX inteiro, como herdeiro do nihilismo nietzscheano, estica-se ainda
mais essa crise, que Morin quer aprofundar.
Querer
superar a crise ou pelo menos sinalizar caminhos de sada, e ainda mais, usando
referncias clssicas, correr o risco de ser acusado de nostalgia ontolgica
ou ainda de falta de coragem e de estreiteza mental, por no se aceitar a
condio de radical insegurana de todo conhecimento e de toda esperana.
Parece-nos que esse tipo de raciocnio um verdadeiro patrulhamento
ideolgico, pois desqualifica a priori o que no for radicalmente nihilista e
relativista. A to propalada busca de pluralidade e dilogo fica assim restrita
entre os que crem no nada, como pressuposto no menos metafsico do que a
ontologia afirmativa. A excluso de dilogo com educadores antigos pode fazer
parte dessa censura implcita.
O caso
que para o educador, que se defronta com a prtica pedaggica e acredita poder
agir no mundo por meio da educao; que pode relativizar posies, mas precisa
ter convices para essa ao – Comenius, Rousseau, Pestalozzi e outros
fazem muito mais sentido dos que os que proclamam o vazio. Podemos, sim, levar
em considerao o terremoto ps-moderno, para evitar dogmatismo e
unilateralidade de viso, mas devemos resgatar alguns pontos perdidos, que do
consistncia ao sujeito, ao humana e existncia.
Nesse
sentido, a primeira condio de conhecimento proposto por esses pensadores o
do encontro epistemolgico. Comparando Descartes e Comenius, explica Dieterich:
A
diferena fundamental entre ambos que Descartes constri seu sistema
inteiramente a partir da razo, enquanto Comenius considera indispensvel para
a aquisio de conhecimento, ao lado da razo, os testemunhos dos sentidos
humanos e da revelao divina. (DIETERICH, 1991:81)
Ou seja,
para alcanar algum grau de certeza, preciso recorrer cincia emprica,
reflexo filosfica e religio. No se exclui nenhum instrumento de abordagem
da realidade para abarc-la com mais preciso.[3]
Assim
tambm Pestalozzi, que propunha uma epistemologia da educao, onde a
observao da criana e da experimentao pedaggica, aliada articulao
filosfica e a um sentimento de religiosidade do educador so partes
constituintes da pedagogia e ao mesmo tempo maneiras de conhecer o homem. Seu
discpulo Rivail, que aplicou na Frana os mtodos pestalozzianos, queria j em
1828 o estabelecimento de uma cincia da educao", que s depois de
dcadas comearia a se concretizar. Mas, antecedendo qualquer radicalizao
cientificista, avisava que a educao tambm era uma arte. (RIVAIL, 2000)[4]
Por ser a
educao ponto de encontro de metodologias e reas do saber, ela se achega mais
ao ser humano e o pode compreender melhor e, alm de estud-lo, tem de lidar
com ele e ajud-lo a realizar-se enquanto ser humano. Mas, para isso, preciso
que o ser tenha uma consistncia ontolgica; que no seja apenas um feixe de
sensaes esparsas. Como pensar em educar um conjunto aleatrio de sensaes,
sem uma identidade prpria? Que significa a educao num contexto de
nadificao do ser?
A condio
para isto o status tico que esse autores reconhecem no homem, entendendo-se
que existe uma moralidade intrnseca, acima das moralidades relativas,
culturais e sociais. Nesse sentido, Rousseau avanou num terreno pouco
explorado que o da conscincia, entendida como luz interior, usando a
auto-anlise, muito antes de Freud e das correntes psicolgicas, para que o ser
humano se possa conhecer tambm a partir de si mesmo. S que, ao contrrio da
psicanlise, Rousseau, embora reconhea e observe o lado obscuro da mente
humana, inclusive de sua prpria, acha no fundo de tudo, uma bondade essencial,
uma imanncia divina, que se traduz na voz da conscincia.
S tenho a me consultar sobre o que quero fazer:
tudo o que sinto ser o bem o bem; tudo o que sinto ser o mal o mal: a
melhor das causustas a conscincia e apenas quando se barganha com ela que
se faz apelo s sutilezas do raciocnio. () A conscincia a voz da alma.
(ROUSSEAU, 1967: 594)
Na
seqncia lgica, deduz-se assim, que na transcendncia humana, na qididade
do homem, de ser mais que o biolgico e o social, que se radica esse status
tico. Por isso, em ltima instncia, recuperar a alma recuperar o sentido
existencial, o ponto de ligao
entre os diversos conhecimentos. Porque reconhecer o homem como transcendente
justamente reconhecer-lhe a consistncia ontolgica, sair do nada e
reencontrar a inteligibilidade do mundo.
Ser essa
linha de raciocnio a da covardia perante a absoluta insegurana? Ser
dogmatismo no aceitar que todos os domnios estejam assolados, como diz
Morin, pelo princpio da
incerteza?Existe um princpio de incerteza no exame de cada instncia
constitutiva do conhecimento e existe um princpio de incerteza no corao
mesmo da lgica. (MORIN & MOIGNE, 2000:69).
No
parece. No apenas por uma questo de f, que para Kant significava um salto no
escuro, mas por uma questo de racionalidade e de conscincia, e se quiserem,
at de utilitarismo. Que faremos com ns mesmos e com o mundo, como continuar a
reproduo da espcie e trabalhar por um futuro melhor (sobretudo atravs da
educao), se nada somos, nada podemos, nada conhecemos e todo e qualquer
princpio de verdade e de tica se esvaziaram por completo?
Comenius,
que descreveu o mundo como um labirinto, onde tudo era representao e iluso,
em que as diversas reas do saber e do agir humano no passavam de
superficialidade e engodo, reencontra a segurana existencial dentro de si, no
paraso do corao, onde est a presena divina (Ver COMENIUS, 1998).
possvel assim relativizar as certezas humanas, mas deve haver uma instncia de
certeza, que garanta a prpria identidade do ser. E foi desse paraso do
corao, que Comenius saiu de si, para agir no mundo e transform-lo. E seu
grande projeto de transformao era de paz universal, de conhecimento pansfico
e da pampaedia – a educao
integral para todos os seres humanos, independente de raa, sexo,
nacionalidade, posio social, idade ou religio.Pretendia um mundo de
harmonia, em que as pessoas pudessem encontrar a felicidade e a realizao
desde agora e, depois, na eternidade.
O mesmo
fez Pestalozzi. Depois de inmeros reveses, que o fez escrever o sugestivo
ttulo Crepsculo de um eremita,
acha em si mesmo a verdade e com a inteira segurana de sua prpria
identidade, dedica a vida formao de crianas pobres e ricas, trabalhando
por uma educao universal, igualitria e integral. E avisa: a verdade pura,
haurida do ntimo do nosso ser, a mesma verdade de todos os homens. Ela ser
a verdade unificadora dos que lutam. (PESTALOZZI, 83:8)
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COMENIUS, John Amos. Selections.
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VATTIMO, Gianni. O fim da modernidade. So
Paulo, Martins Fontes, 1996.
[1] A obra de
Reale faz exatamente isso em relao aos clssicos da filosofia. REALE,
Giovanni. O saber dos antigos. Terapia para os tempos atuais. So Paulo,
Loyola, 1999.
[2] O preconceito parte dos prprios educadores, que chegam a infringir as
regras de uma boa anlise cientfica, para atender a idias pr-estabelecidas
por cartilhas ideolgicas. o caso de um livro recentemente lanado e que foi
tese de doutorado na Unicamp: ACRE, Alessandra. A Pedagogia na Era das
Revolues- uma anlise do pensamento de Pestalozzi e Froebel. Campinas: Editores Associados, 2002. A autora sequer cita o pensamento
filosfico de Pestalozzi, alis tendo examinado numa tese de doutorado apenas
trs livros seus, traduzidos, (um deles uma coletnea esparsa), quando sua obra
em alemo conta 40 volumes. Alessandra d uma interpretao distorcida de
Pestalozzi, ignorando as mudanas de pensamento poltico e social, por que
passou em diversos momentos de sua vida e esforando-se para dar dele uma viso
de educador assistencialista, conservador e burgus. Nenhuma obra sua em alemo
foi consultada e no foi citado nenhum dos 12 mil ttulos catalogados em todas
as lnguas, que analisam e estudam o pensamento complexo e rico de Pestalozzi.
Os estudos pestalozzianos na Europa, conforme j demonstrei em INCONTRI, Dora. Pestalozzi,
Educao e tica. So Paulo, Scipione,
1996, nunca pararam no sculo XX, redescobrindo-se a cada instante a
profundidade de seu pensamento. Mesmo assim, essa pesquisa fica adstrita aos
meios educacionais (e no Brasil, nem a esses meios) e no chega a interessar os
filsofos que se fazem escutar como porta-vozes da contemporaneidade.
[3] Sabe-se que simples enunciao da palavra religio levantam-se
mltiplas polmicas. A primeira delas : qual religio? Quando Comenius se
referia revelao divina, queria se referir apenas ao cristianismo? Ento,
como incorporar como fonte do conhecimento humano um ponto de vista especfico,
condicionado a uma determida cultura? Essa questo pode render uma tese. Mas s
para clarear um pouco o problema, pode-se dizer que hoje se reconhece que a
prpria cincia tem seus condicionamentos culturais e nem por isso propomos
desprezar-lhe os prstimos para conhecer o mundo (apesar de todo relativismo de
que ela alvo). Quando Comenius fazia essa assertiva, porm, embora fosse
cristo, fazia-o, a nosso ver (e se no o fazia, podemos fazer ns), de um
ponto de vista inter-religioso. Ou seja, no ser possvel encontrarmos um
domnio do religioso, onde as religies se encontrem e desse domnio comum,
estabelecer um dilogo com as outras reas do conhecimento? Por exemplo, o
simples reconhecimento de uma dimenso espiritual do ser humano – coisa
comum a todas as religies – seria um bom incio.
[4] Mais tarde, Rivail se tornaria Allan Kardec, o fundador do espiritismo
e tentaria justamente realizar uma proposta epistemolgica, que chamei de
paradigma do esprito. Ver INCONTRI, Dora. Pegadogia esprita, um projeto
brasileiro e suas razes histrico-filosficas.
Tese de doutorado. So Paulo, FEUSP, 2001.